domingo, 15 de abril de 2012

- Estou mais feliz fingindo que acredito, do que quando fazia força para acreditar. - disse-lhe a FÉ.

- Não acredito! - respondeu a ESPERANÇA.

E, até chegarem a casa da amiga ILUSÃO, não disseram mais nenhuma palavra...

"Olívia: de volta ao país das maravilhas!"

O que fazer com aquele momento? Congelá-lo no presente, eternizando-o, sem as possíveis máculas que o fariam perder o brilho, ou arriscar-se nas aventuranças do tempo futuro? Quanto ao desconhecido, as possibilidades são inúmeras e interdependentes. Era essa a dúvida da protagonista do filme. No enredo, Olívia acreditava que as pessoas eram uma rede muito complexa e subjetiva de acontecimentos e escolhas e de uma série, ainda menos previsível, de possibilidades físico-biológicas, sócio-econômicas, ambientais e temporais. Todas elas também dependentes uma das outras, posto que, por exemplo, a sanidade física e psíquica de um indivíduo está, de maneira direta ou indireta, subjugada ao ambiente em que vive; ao que sente em relação a tempo como cronologia e como sensação mais subjetiva; a maneira com que conduz os eventos que ocorrem em sua vida; e em como as pessoas ao redor enxergam e reagem à suas opiniões e atitudes em relação a todas as coisas.

Estava convicta de que ela era uma mistura tão grande de fatores, que nunca saberia com certeza quem realmente era. Sabia que talvez, em algum momento, outras pessoas pudessem acreditar serem capazes de se auto-definirem, de maneira infalível. Até que um dia se deparariam com uma inquietação que, por vezes, não saberiam identificar e, muitas outras vezes, nunca descobririam ser apenas (mas não simplesmente) a certeza absolutamente indiscutível de não saberem quem são exatamente. De no fundo mais secreto e genuíno dos seus seres saberem que não poderiam apostar uma única moeda em um si mesmas, ou na certeza de saberem qual seriam suas atitudes em vários momentos de suas trajetórias. Compreendia que por serem, os seres humanos, tão eficientes na arte da especulação e do julgamento, usavam tais faculdades como ferramenta para o autoconhecimento. Esqueciam-se, porém, que, por serem tais talentos uma conjetura do futuro, não passavam de meras hipóteses. E as hipóteses dependiam de uma série de fatores que, por sua vez, dependiam de outros tantos fatores dinâmicos, que, exatamente por estarem condicionados, nunca seriam os mesmos. O que fazia com que as pessoas nunca fossem as mesmas também.

Por tudo isso, acreditava que não fosse possível que as pessoas soubessem com exatidão quem eram, nem mesmo em um momento presente bem delimitado, como numa fração de segundos, ou numa parte menor dele, porque ele já se teria passado. Porque enquanto o momento se estabelece, alguém lhe faz uma pergunta, você ouve um som que vem da rua, alguém te telefona, você sente uma dor de cabeça ou uma fincada no peito, lembra que precisa fazer alguma coisa, e, então, já não é mais a mesma pessoa. Porque todos são essa bagagem infinita que vão acumulando, ao longo do tempo.

A incerteza sobre as decisões a tomar, torna-se, muitas vezes, um golpe de sorte, apenas, e quase nada teria a ver com moralidade, valores ou em seguir, ou não, o caminho do bem. Tomar decisões, nesse ponto de vista, seria como escolher investir seu dinheiro em um fundo conservador ou agressivo e torcer para que o mercado financeiro reaja de acordo com o que a pessoa apostou. Escolher um fundo conservador, assim como decidir congelar o presente, daria, assim, a certeza de um determinado ganho. Por outro lado, optar pelo investimento de risco agressivo, ou aventurar se na imprevisibilidade do porvir podem trazer, pelo menos, duas possibilidades como resultado: ganhos muito maiores ou a perda de todo seu capital; social, cultural e emocional, cada um no seu contexto.

Especificamente no seu contexto, pensou que suas dúvidas pudessem vir do medo de um desapontamento pseudo-inconsciente, mas obviamente realizável. A ideia de impedir que o brilho daquele momento se apagasse poderia ser também um medo de que o outro escolhesse por ela, fazendo com que ela se submetesse à vontades alheias, mais uma vez. Seria uma forma de defesa? Uma intuição? Uma vaidade infantil?

Olívia percebeu que no fim de suas explanações sempre se deparava com perguntas daquele gênero. E todos aqueles questionamentos poderiam ser traduzidos em um só: “Quem ela era?”.

Quase exaurida, Olívia, teve ânimo para uma nova reflexão. “Quem sabe todas as perguntas não seriam mais uma maneira sórdida de articular sua tentativa em adivinhar o futuro? Mas como aquilo também era uma pergunta, preferiu ficar com a primeira e decidir pela sorte. Jogou uma moeda para o alto e, enquanto esta rodava no ar, torceu para que desse cara e sua história cinematográfica tivesse um final surpreendentemente feliz.

Alice, por sua vez, ao desligar o aparelho de DVD, pensou que não se parecia em nada com a “mocinha” da película. Lembrou que a arte imita a vida, mas se esqueceu que o contrário também acontecia.

Talvez ela devesse ver o filme mais uma vez. Se der cara, ela aperta o "replay", se der coroa, ela desliga o aparelho e vai ler um livro. Mas não vai fazer resenha.



domingo, 1 de abril de 2012

Vestido de noiva

Eram muito ligadas, as duas. Naquela sexta feira, estava feliz em ver a amiga dormindo em sua casa, de novo, depois de dias difíceis de um afastamento involuntário. Mal sabia o quanto sua companhia a fazia bem. Mal sabia o quanto a presença dela, naquele dia, fora importante. O sonho! A amiga havia sonhado com vestido de noiva preto. Depois, mais tarde, lembrara: “Ah, sonhei também que vocês dois ficaram juntos naquela noite e que, no dia seguinte, pela manhã, chegaram até mim, mostrando as enormes tatuagens que vocês dois tinham feito no corpo.”. Ela achou o sonho engraçado. Mas será que queria dizer alguma coisa? As duas tão amigas, tão cúmplices, tão ligadas... Aquele sonho sobre o que mais lhe tirava a tranquilidade, justo na noite em que dormira em sua casa... Um vestido de noiva preto, as mensagens psicografadas, os indícios, a ausência constante, o telefone mudo e a noite de completo desassossego e reflexão que tivera, fizera-lhe concluir. Vivia uma história com ela mesma, apenas. O luto em uma noiva só podia ser mesmo pela morte do homem que ela acreditou que seria seu um dia. Mas ele se foi antes.
A sensação que tinha era de não ter conseguido viver o presente, por ter pensado demais no passado. Talvez, ela não tenha sido capaz de superar suas dores e perdas, até ali. Mas será que algum dia realmente havia tentado? Costumava acreditar que os dois estavam conectados de maneira tão intensa que seria inútil tentar esquecer aquilo tudo que, agora, ela temia ter sido apenas uma impressão unilateral. É difícil aceitar que nada daquilo existiu. É muito triste pensar que o que tiveram foi apenas... nada! Antes tivesse tentado realizar o discurso que improvisara, logo depois da separação, quando lhe perguntavam sobre os dois: “Eu gosto muito dele, mas é impossível ficarmos juntos!”. 
Quando se lembrou das expectativas que havia criado, quando recapitulou as coisas que havia dito e feito de forma impulsiva (sempre com a justificativa de que uma oportunidade perdida nunca volta), quando pensou em todas as desculpas que inventou para legitimar alguma atitude tosca que ele havia tomado sentiu-se patética. Completamente ridícula! Ela não teve limites. Acreditou ser amor, depois vício, denominou obsessão, pôs a culpa em sua vaidade, chamou de doença. E naquele momento em que tentava fazer com que seu coração fizesse as pazes com a razão, desconfiava ser irrealizável.
Ela havia cedido demais, dado confiança demais, espaço demais, chances demais, falado demais. Quantas vezes havia dito que seria a “última vez” ou que “nunca mais”? Deu àquele homem o tempo que nunca dera a ela mesma. Mesmo com toda a ansiedade, afobamento, pressa, tentou aguardar o tempo certo. E quando começou a se perguntar como saberiam a hora certa, foi que percebeu uma linha solta em toda aquela urdidura. Ela que já tentava aceitar a ideia de que devagar se vai ao longe, não conseguia entender o que o fizera mudar o passo, desacelerar, parar naquele ponto. E tinha medo de perguntar. Melhor acreditar que era ela quem havia desistido. Era ela quem não queria mais aquilo.(...) Que nome poderia dar para aquilo que estiveram vivendo? 
Tentou, então, focar nos defeitos dele: seu egoísmo, sua indecisão, sua falta de humildade, sua agressividade. Ela não precisava juntar mais defeitos aos seus, que já eram tantos! Não precisava dele para comentar um livro, discutir a letra de alguma música, nem para escolher um filme para assistir no domingo à tarde. Na verdade, isso até seria impossível, já que ele não gostava de ler, não sabia a letra toda nem de “Atirei o pau no gato” e nunca tinham visto um filme inteiro juntos.
Já havia conjecturado as lembranças que a atormentariam, a partir de sua decisão. Imaginou, dessa vez, quais seriam as recordações que ele tentaria espantar de sua mente. Como se esqueceria das vezes em que ria dela, quando desligava o telefone em sua cara e, logo em seguida, ligava de novo, ao que ele dizia: “Você não muda!”? Como ele poderia suportar imaginá-la inventando apelidos totalmente constrangedores para mostrar o tamanho do seu amor por outro? Como viver sabendo que ela poderia ter com outro um sexo tão encaixadinho como tinham? Para quem ela faria estrogonofe, nos finais de semana? Como seguir sabendo que não serão os seus sapatos que ela tiraria, nas vezes em que ele desabasse na cama, bêbado? Quem gargalharia com ela, pelos comentários mais idiotas? Será que teria com alguém a mesma liberdade, em casa, enquanto esperassem o sanduíche chegar? Como agüentaria pensar em outra pessoa sentindo aquele cheirinho, recebendo as pequenas surpresas, os cafunés, enquanto ele fingisse dormir? Como não ter a sua companhia incondicional, em qualquer programa? Como faria sem saber o que ela está fazendo agora... Ele também sofreria. E como era humana, não achou ruim que assim fosse.
Cansou de acreditar que iria ficar bem com as migalhas que ele lhe oferecia. Não conseguiria mais falar para as pessoas sobre eles e tentar explicar do que é feito o sentimento que tinha por ele. Não sabia qual a natureza dessa coisa que a prendia a ele. Mas sabia que não conseguiria mais fingir que dava conta daquilo. Queria se desiludir. Não queria mais ter esperanças, ela que sempre acreditou. Não queria mais sentir amor, nem ódio. Não queria sentir mais nada. Ela sabia que essa desintoxicação seria difícil. Abster-se dele não seria fácil. Mas andava preferindo a morte a ter uma recaída e passar por tudo novamente.
Por isso, para não ter o risco de uma recaída ao encontrá-lo, resolveu lhe escrever:
“Vou embora e quero sua permissão, já que, sem o seu consentimento, não terei sua ausência. Quero que me deixe, porque hoje a dor é maior que tudo de bom que já tivemos um dia; as decepções vieram de brinde com a falta de entendimento. E é por isso que digo que não quero mais as coisas desse jeito. Substituí a mania de pensar em você todos os dias, o dia todo, pela obsessão em conseguir não sofrer mais. Penso, agora, no porque de não ter enxergado e parado com isso antes. Porque é tão difícil mudar a rota, se sabemos que o tempo vai curar essa dor; se já vivemos isso com outras pessoas? Qual o sentido de se acumular experiências, se não as usarmos para nosso bem? É por isso que, a partir de hoje, para o meu próprio bem, não vou mais chamá-lo de meu bem. Não se preocupe, não quero seu mal, aliás, continuo amando você. E para que esse amor vire indiferença e não raiva é que sugiro que paremos por aqui.”

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Preconceito linguístico

ELE ESCREVE:



"Sinto muita saudade longe de voçê. Estou agora olhando o Cristo Rebentô ao tom de Blitis. Nunca intendo quando Evandro Mesquita canta 'boa noite patos do paraiso' mas deve de ser alguma daquelas metástases que você tanto grada. Coisa daqueles caras das filosofia tipo Plutão e aquele outro com nome de jogador de futebol. Vi foto de sua filha. Linda! A genética é mesmo ereditária!!!! Quase não tenho saído pois aqui tudo é muito caro. Uma cerveja é na faicha etária de sete real.

(...)

Hoje tive MENOS coisas para fazer por isso resolvi dar uma volta. Sei que vocêdiz não existir chance mas acho que A GENTE é tão aparecido. Pensa nisso”


FOI O SUFICIENTE PARA ELA DAR UMA CHANCE A ELE.


Porque para ela AGENTE tem sempre MENAS paciência para umas coisas que para outras.


MORAL DA HISTÓRIA: Tudo na vida se resolve com o tempo ou com o foda-se!!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

"Eu escrevo sobre o que não conheço."

Tem algumas coisas me incomodando há algum tempo. Algumas há algum curto tempo, de maneira latente, outras há mais tempo, de maneira latente. Em mim, tudo é latente, inebriante. Tanto o bom, quanto o ruim. Mas é a intensidade do neutro que me perturba, mesmo. A espera, a dúvida, a improdutividade e tudo mais que me paralisa. E o que me paralisa, me perturba, e a perturbação já é uma tentativa de movimento. Mas é a saída que não explode. Não a saída como sair de cena, finalizar, nem como a solução. A saída. O início. A largada... de quem não quer largar. De quem não quer soltar. Foi nesse ponto que descobri que me conheço bem. Já que sei o que me faz bem e, por isso, não quero soltar. Ou não quero soltar porque tenho medo de ver que nada do que pensava era mesmo o que pensava e que, na verdade, só acho que me conheço. E foi nesse ponto, imediatamente posterior àquele mencionado, logo ali, que descobri que não me conheço.

Foi aí que uma visita a endocrinologista mudou tudo. A médica me indagou se não tenho tido acessos de desânimo físico ou psicológico e que permeavam a sensibilidade profunda (o que interpretei como depressão). Se não estava percebendo meu raciocínio mais lento. Respondi que sim e não. Sim, para acessos de desânimo físico e psicológico. E não para a proximidade com a sensibilidade profunda, (meu) vulgo depressão. Sim para raciocínio lento - mencionado por pessoa muito próxima. “Isso é câncer?”. Foi por causa dessa pergunta que, então, finalmente resolvi escrever hoje. Mas sou da opinião de que a gente sempre escreve sugestionada. No meu caso, a sugestão real foi o texto de um blogueiro que adoro ler chamado Paulo Bono. Em um determinado ponto do seu texto, ele diz que toda dor que sente pensa ser câncer. Eu também. Morro de medo de câncer e morro de medo de que meu medo não seja medo e sim premonição. Enfim, a médica achou graça da pergunta, disse que não era câncer e que, pelos exames, eu só estava tomando a dosagem errada de hormônio tiroidiano que meu organismo precisava para o metabolismo corporal adequado. Uma semana depois já me sinto menos estática, já querendo mover meus dedos e meus medos novamente. Começando sempre aqui. Que é para tentar colocar meus pensamentos em ordem e deles tirar alguma conclusão.


E é aqui, possível leitor, que senti uma inveja danada de Charlie Kaufman e Paulo Bono. Este só reclama que é careca e gordo, mas ele sabe quem ele é, assim como seu ídolo. Aliás, foi por causa do tal Kaufman e de sua afirmação de que ele escreve sobre ele mesmo porque ele só escreve sobre o que conhece bem, que Bono resolveu escrever também.


Então, tentei me consolar forçando a barra para me incluir: eu me conheço bem, porque sei que não me conheço bem. E a não ser que que eu não conheça nem a ideia do que seja um ser humano, desconfio que eles podem estar enganados, também.

Resumindo, todo mundo se acha melhor que os outros em alguma coisa: Kaufman acha que é bom em falar dele mesmo, Bono acha que é melhor para criticar filmes e eu acho que sou melhor em crer que coloco dúvida na certeza dos outros. E na minha também, claro!

***Gostaria de saber se Charlie Kaufman tem medo de câncer.

Por Elga Arantes, 2012.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Tumor literário

Metástase? Não, não... é uma palavra muito cheia de sentidos ruins para metaforizar o que vinha acontecendo com sua personagem. E, como queria, dessa vez propositalmente, que aquele fosse um romance passional, não permitiria que Alice, a protagonista de seu conto mais singelo, quanto real, parecesse ingrata aos olhos de seus leitores. 

Frente àquela dúvida quase ignorante, resolveu recorrer ao dicionário. O que fez com que ela percebesse o quanto o vocábulo fora providencialmente escolhido a dedo - mesmo que de maneira despretensiosa. Ela leu: "[Medicina] Alteração de uma doença (na forma ou na sede). [Retórica] Figura pela qual o orador atribui a outro o que diz.". Achou que aquilo era familiar demais à sua personagem que vivia a pulsão de morte de maneira tão exemplar (e ela sabia que aquilo não tinha, definitivamente, nada a ver com a morte em si.). Ao mesmo tempo em que a definição no âmbito da retórica, fosse um tapa de luvas de pelica na autora daquele conto de segunda mão. Era intertextual demais, assim como a maioria de suas crônicas, resenhas e narrativas, sempre tão arrogantemente subjetivas. Ela acreditava que a trivialidade de sua vida fosse genuinamente interessante a todos os leitores e não só àqueles mais despreparados (pela vida) e leigos (sobre a vida). 
  
De qualquer maneira, resolveu, como que por remissão, abster-se do termo. Não poderia, nem queria, que Alice, tão meiga e despreparada, enfrentasse a ideia de que o que sentia de mais puro e forte fosse interpretado como uma enfermidade. Se assim fosse, seria ela toda a multiplicação desordenada de células, tamanha era a sensação de impotência frente à impossibilidade de controle dos seus sentimentos em relação aquele homem. 

Ele sempre mexera demais com seus ímpetos, desde o começo. Mas esse é assunto já abordado em capítulos anteriores. A autora precisava, agora, descrever o que acontecera com Alice, com o repentino retorno dele em sua vida. Em uma vida que já tomava outro rumo, respirava outros ares... que não vivia mais o arrebatamento íntimo, mas, por outro lado, não lhe causava dores tão singulares e indefinidas e, por isso mesmo, tão avassaladoras! Vivia a calmaria, depois de uma rebentação. Vivia, naqueles dias, uma verdadeira ressaca em sua vida. Refluxo de tudo que havia tragado noutros tempos e que lhe entorpecia os sentidos novamente. 

Mas Alice parecia fascinar-se com o medo que sentia daquilo tudo. Sim. Ela tinha medo. E não sabia mensurar qual dos seus temores era maior. A insegurança em relação ao desconhecido que experimentava junto a alguém que conhecia tão bem ou o receio de uma vida estável que lhe proporcionava uma constância  emocional que não chegava a ser a definição de equilíbrio. Ela não teria, fosse qual fosse sua escolha, a harmonia dos sentidos. Teria que escolher entre dois opostos: o marasmo circunstancial e sua apática reação, logicamente prevista, de um lado, e a inquietude de uma vida alvoroçada por ações impulsivas e reações que não podia prever, justamente pelo caráter da relação.  

Se fosse um conto infantil, seria quase que obrigada a plagiar o conto do País das Maravilhas, cheio de seres extravagastes e insensatos, para legitimar sua própria alienação frente à situação que vivia. Ela ouviria a Rainha de Copas ordenando à vida que desse as cartas naquele jogo sem blefes. Se ela ganhasse, acordaria daquele sonho, no ponto onde adormeceu. Senão, a Rainha odenaria: "Cortem a cabeça dela!!!" 

Por Elga Arantes, 2011.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Carnaval em Salvador, Rodeio de Barretos, Oktoberfest e aposta de virote, sem arriar...



Não, não... não é a superficialidade dela, não. É justamente toda a profunda autonomia sobre as nossas vontade que me encanta em  estar solteira. É se vestir da gente mesmo e e viver a própria vida, só pra variar. É  não achar que a vida  do outro pode ser a sua vida, porque você escolheu assim. A gente só escolhe, quando não é escolhido, antes. E no caso em questão, não ser você mesmo é subjulgamento de si, em relação ao outro. E quem não se garante, é garantidamente alguma coisa oposta a ideia do que seja estima por si mesmo, vulgo amor próprio, por prioridade, não por exclusividade, pois não falo de egoísmo, nem de solidão o que nem combina com a vida social agitada de um solteiro.

A autenticidade de poder ficar um final de semana inteiro, apenas vendo filmes alugados, ou jogando buraco, seguidas vezes, varando am adrugada e nem assim se sentir menos feliz do que o amigo que se acaba afogadon do-se em Asolut e regado a Red Label é o mais instigante. Por outro lado, poder falar com categoria sobre todos os sininhos e cores que quem nunca foi solteiro nunca poderá ver e ouvir é redentor. No meu caso, o antes tarde do que nunca é o ditado providencial, para resumir o “o aue” momentâneo que vivencio. Sentir aquilo que só foi teoria ou hipótese racional de uma mente viajante, não deixa de ser uma experiência válida, mesmo que aparentemente fortuita. Saber-se animal, mesmo que pensante, empiricamente comprovado, mesmo que por amostragem(com 100% de aproveitamento, de preferência) é libertar-se da acusação de não saber do que se fala. A gente só sabe que uma coisa é mlehor que outra, quando prova as duas e isso é fato. E fato não se revoga.
Mesmo que acredite que concluirei minha preferência pela ideia do ser passionalmente social, enquanto não formo oficialmente opinião sobre o assunto, vou por aí, por aqui e por lá, experimentando. Provando um pouco dessa dose inebriante do etilismo viciante que todos chamam de vida!!! Claro de camarote, open bar...

No final, alguém vai gritar: pronto! Podem colocar suas máscaras de volta, o carnaval acabou!!!! Mas tudo bem, eu aguento!


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Hiéé, Hiéé, Hiéé..


Uma alma e seu violino.

Foi assim. Um homem simples, num corpo comum. Uma alma notável que reproduzia a trilha sonora perfeita para o bucolismo de um lugar de natureza exuberante, que fora o pano de fundo de uma vida toda. Ele também era, por natureza, exuberante e bucólico. E foi esse paradoxo de simplicidade e sabedoria que o tornou admirável até aos olhos mais displicentes.

E essa aparente falta de nexo, diferente do que possa parecer, não causava desarmonia. Ao contrário, foi exatamente por não deixar que a humanidade escapasse de suas mãos, que ele não se fez etéreo e pode permitir que cada um se identificasse com ele de alguma maneira. E foi o que fez com ele se tornasse, cada vez mais, próximo de seus conviventes. Quem era amigo, virou irmão. Quem era filho, ficou seu fã.

Sua risada singular estava em concordância com sua função de músico: celebrar a vida. Sua voz retumbante estava em conformidade com sua função de anunciar o fato mais estrondoso e derradeiro da vida: a morte.

Compreendia que a morte fazia parte da vida. Agora, nos prova isso com seu próprio exemplo, quando olhamos sua moto, ali estacionada, e ainda podemos ouvir o ruído dela se aproximando; quando ouvimos o som de um violino e nos reportamos rapidamente a imagem plácida de quem era amante das artes; quando alguém remeda sua risada inconfundível, provocando as gargalhadas de quem está ao redor; quando ouvimos discursos inflamados sobre a má gestão política e a corrupção. Logo ele, incorruptível no que tangia seus valores...

Não exigiu nada de maneira explícita, mas os seus exemplos, por si só, impõe a nós, que pudemos assistir um espetáculo, mesmo que despretensioso, de generosidade e humildade, primemos pelo amor e pela brandura, em detrimento do orgulho e da intolerância.

Que seja esse, então, o agradecimento legítimo a uma alma genuína: o amor! À vida e ao próximo.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

As coisas também morrem


Quando a morte de alguém que gostamos vem de maneira inesperada, a dor é profunda e quase cruel, posto que a crueldade é uma exclusividade humana. A dor da perda, a certeza da saudade, a consciência da falta e a enigmática sensação de viver o imprevisto, faz da dor algo quase inefável, consequência do desconhecido.

Já a morte de quem já sucumbia doente, quase que faz com que a sensação não pareça funesta. Quase! E esse “quase”, aparentemente tendencioso para algo bom – “quase conseguiu...”- ou , pelo menos, algo que nunca é totalmente ruim – “quase não conseguiu...”- quando tira a máscara da dissimulação, fere mais que a inevitabilidade da certeza, a falta da dúvida, a ausência da esperança.

Preparar-se para a morte é como enxugar o gelo. Muito esforço, pouco resultado. Tentar calçar-se numa falsa segurança que a prevenção pode nos dar é, por vezes, decepcionante.

Não há como rearranjar o porvir. Não há como manipular os sentimentos. Não há como tentar compor situações, de acordo com nossas capacidades emocionais. Acreditar-se absolutamente habilitado para o sofrimento é armar-se para a vida e quem guerrilha com a vida, inevitavelmente, morre, matando ou morrendo.

Portanto, a melhor maneira de sofrer é sofrendo. É admitir a dor. A dor é inevitável, o sofrimento também. O que é opcional é a atitude perante essas impressões. Resignar-se não é sinônimo de desistir e sim de compreender que todo processo tem suas etapas.

O alívio impreterível só virá mesmo de uma maneira: pelo fim. Do sofrimento, não seu! 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

N.R.A


( ) Ela gostava dele. Público.
( ) Ela gostava dele? Incoerente.
( ) Ela gostava dele! Masoquismo.
( ) Ela gostava dele... Nostalgia.
( ) Ela gostava dele. Ela gostava dele. Ela gostava dele. Mantra.
( ) Ela gostava dele. Tempo verbal.
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